Nathan Sawaya

Uma pessoa boa

Eu não sou uma pessoa boa.

Eu sou uma pessoa péssima.

Eu sou essa pessoa péssima. Não sou boa. Na verdade só sou boa porque sou péssima.

Toda essa bondade, essa candura de pessoa veio de uma pessoa mosca, um ser ruim, amargo, contaminado, veio de dentro de mim e emergiu tudo de uma forma péssima.

Aliás a forma como vem e que veio, toda essa questão de forma e desenho também é péssima.

Não tenho forma, não me conformo em não ter forma, e mesmo sendo este ser sem molde que não consegue ser que não se define, prossigo assim sendo péssima.

A forma dentro de mim jorra para fora, escorre, escora na forma de fora, contorna laços, finge que faz alguns agrados, tenta ser algo, ocupar algum lugar, ser alguma coisa, tenta parecer ter forma. Mas não dá.

Eu não sei ser, eu não sei ser alguma coisa e assim prossigo sendo nada. A forma não delimita nada. Dentro está o incerto, a gruta malformada, o lodo. Eu jorro coisas, eu tento jorrar algo para fora, mas tudo que jorro do poço são notas malformadas e desenhadas a torto do que carrego por dentro.

Eu não sou boa, eu nunca fui boa, eu tento ser boa para compensar a falta que faz a bondade por dentro. Não tenho sentimentos, trabalho com afinco para os ter. Eu não sou uma pessoa boa, eu sou só humano tosco. Um saco vazio preenchido por aquilo que não ressoa, por aquilo que não faz coisas boas, tentando se exibir para o mundo de uma forma melhor.

Mas o melhor não existe.

O melhor não existe, não existe uma coisa melhor que outra, existem apenas várias coisas, paralelos incontáveis que se cruzam ou que não cruzam, existem mundos, zilhões de mundos, microesferas do presente passado e futuro, não existem mundos, existe um universo e o que está entre as coisas é tudo e nada ao mesmo tempo.

Quando seu olhar cair sobre mim e pensar que eu sou uma pessoa boa, se lembre que eu não sou uma pessoa boa. Eu não sou uma pessoa. O bom de mim é apenas o que se esvai da penalização da minha maldade, é o resgate, é o que faço para esconder a mais pura verdade: não existe uma pessoa boa.

Talvez você não compreenda, talvez não entenda nada de fluxo, nada deste eterno luto que é viver. Talvez você não entenda como a bondade não existe, como eu insisto em falar da maldade, persisto na inexistência do Universo. É que da mesma forma que bondade não tem existência, também não existe só a maldade. Não existe só o ruim, o ogro, o malformado. Só se tem o indefinido.

Só o que existe é o infinito. E quando descobrimos isso, quando descobrimos que só o infinito não tem fim é que finalmente estamos presos e livres. Estamos livres. Nos libertamos do convite que é viver para ser uma pessoa boa.

Porque não existe pessoa boa

Vamos trocar ideias?

😉

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Me Escondo aqui . Escritora✒️, cirurgiã🔪mãe👻,relacionamento sério com as palavras. Livros: Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

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