Eu entro no quarto e você me pergunta com os olhos aquilo que por dentro já sabe.

É verdade.

Você vai morrer.

Não quiseram te dizer. Não sei se foi o medo ou a falta de jeito. Se foi o egoísmo, a prudência ou o abismo que por vezes cavam entre os próprios interesses e você. Ou se não sabem quando, nem como te dizer.

Você vai morrer.

Decerto que apesar de todo mistério, você já sabe. Não é demérito. A última batida há de chegar para todos nós. Quem não te disse, não é bem que mentisse, só optou por não dar voz à fria frase.

Você vai morrer.

E isto pode ser logo.

Eu posso te explicar que era tumor. Posso tentar amenizar com palavras veludo a tua dor. Não há de adiantar. Tem metástase. O fígado já faz parte da tua interna revolta.

Você vai morrer.

Não tem muito o que se fazer, a não ser esperar a resposta.

Nem interessa qual o tipo. Nem a biópsia. Teu corpo é um grito de injúria e misericórdia. O futuro só te promete dores. Remédios, agulhas, náuseas e tédio. Tua mulher que hoje te escora e pega firme a tua mão, tem no peito amor e nos olhos água, pois já sabe que a despedida deverá ser bem antes. Não interessa quão amantes foram ou são. Tua doença é uma condenação.

Você vai morrer.

É só outra forma de dizer.

Posso ser doce. Afável. Te enganar e até deixar a esperança atrás do armário. Mas sei dos fatos.

Você vai morrer.

E eu não tenho o que fazer.

Saio do quarto e você me responde com os olhos: obrigado pelo afago.

Eu entro no outro quarto.

Te vejo sangrando de uma furada que te deram na barriga. Chamaram tuas plaquetas para a briga, mas elas não deram conta da batalha. Já estás muito fraca. Teu olhar já é para o nada. És ausência de sorriso. Estás pálida. Tens a pele de laranja doce consumida. Vejo tua filha a mercê, presenciando o ato e a retiro de cena.

Ela vai morrer.

Já vieram te dizer. Em alíquotas. Vim apenas ressaltar que não tem mais cirugia. As costuras estão boas. Então, foi tudo à toa?

Ela vai morrer.

Retirou-se o cancro. Não tem nada entupido. Mesmo assim, a peste voltou consumindo teu fígado. Não tem mais nenhum procedimento.

Mesmo que fosse, tu já sabes do perigo. Ela é uma pétala de rosa esperando seu caimento.

Ela vai morrer.

Tua mãe vai-se embora. Não preciso te dizer. Tu entendes e choras o gosto amargo da derrota. Tu me perguntas se podes trazer os netos. Eu não nego. É o que posso. te conceder nos poucos segundos de sopro de vida a restar.

Ela vai morrer.

E eu não tenho o que fazer.

Posso ser doce e afável. Já não posso nem esconder a esperança, ela já não existe. Tu enxugas as lágrimas, finges que és forte, e olha em riste e me fala: obrigado pelo afago.

A gratidão não me faz melhor. Eu sigo pelo corredor com um coração em nó, carregando na alma a poeira cinza daquilo que já sei.

Volto para casa escorrendo em lágrimas as dores de olhar uma vitrine de agonias.

Este foi só mais um dia.

🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

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