Todo mês ela sangra.

Não é de agora.

Ela já veio suja de sangue desde o início, quando fez uma outra esvair-se de seu compromisso com a vida, enquanto alguém partia o primeiro cordão no meio. Aquele que mais tarde seria seu umbigo e seu martírio.

Nem se lembra exatamente a primeira vez que sangrou.

Foi bem antes da menstruação.

Acho que foi lá pela primeira chinelada. Ou foi naquela queda no lance da escada? Quando arrancaram-lhe o primeiro dente. Quando a esqueceram, de repente. Quando passaram firme o pente fino para catar os piolhos. Quando riram do seu choro. Quando o menino não quis dançar com ela na festa São João. Quando escorregou no meio do salão.

Todo mês ela sangra, mas tem sangrantes que vieram antes.

Como quando desejou ter outro cabelo. Ou outro corpo. Quis ser aceita de qualquer jeito. Quando olhava no espelho e não via beleza. Quando lhe encheram o peito de incertezas.

Quando sangrou do útero, o mundo já lhe era obtuso. Só mais um ciclo de sangue regular se acrescentou. De resto, nada mudou. Ela continuava sangrando.

Sangrava nas roupas. Nas louças. Nas tarefas domésticas. Nas ausências. No abismo das diferenças entre irmãos, chefes, parceiros de trabalho e monetário. Nos lustrados preconceitos diários. Em cada assédio, cada gargalhada e cada fina agulhada disfarçada de piada.

Todo mês ela sangra, mas tem meses que ela sangra mais.

Quando deixa o filho para trás. Quando alguém duvida do que ela é capaz. Quando não pensa em seu umbigo vaz. Quando um homem não aceita que ela é demais. Quando uma mulher não aceita que ela é demais. Quando fingem que aceitam sua maternidade junto com seus ideais. Quando os filhos a deixam para trás. Quando anunciam a idade que não pode mais.

E mesmo na menopausa ou sem útero, ainda sangram mudas, em luto. Cobram seus rebentos, impõem anéis e sentimentos. Semeiam o terrorismo da solidão. Renegam as titias. Minam sua alegria de viver com ousadia.

Todo mês ela sangra e, até o fim, sangrará muito mais. Quando as peles e as rugas, já cansadas de tantas surras, nem lágrimas conseguirem produzir.

Ela sangra. E como sangra! Talvez, hoje bem menos do que era antes. O esforço das outras belas raízes, deu frutos matizes e lhes ornou uma luz no firmamento.

Ela sangra, no momento com leve louvor. A demonstrar como o amor e a dor podem ser passos da mesma dança. As bandejas opostas de uma balança.

Sangrando, lutando, seguindo, sonhando e reluzindo o ardor de resistir.

Até quando? Até onde ir?

Até o mundo enxergar que cada humano só existe pois uma mulher sangrou ao parir.

🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

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