Sem crônicas — Horror

O Grito por Nathan Sawaya The art of brick

Ser feliz?

Deus que me livre.

Terei que apagar essas cicatrizes?

Cadê a honra?

Cadê a dor?

A amargura?

A tortura?

A falta de amor?

Ser feliz, meu Deus, que horror!

Terei que ser livre.

Terei que enfrentar os dias sem nenhum desalento.

Estar contente e satisfeita com o presente.

Lidar comigo mesma e não preencher a mente com alguma mosca ou ideia tosca.

Não, não me deixa ser feliz, não.

Quero mesmo é ser meretriz das desgraças.

Felicidade não existe. Quem foi mesmo que disse?

A vida não é conto de fadas.

Não posso ser feliz. Não posso estar satisfeita.

Tenho que estar logo mais, correndo atrás de uma alma perfeita.

Quero alcançar um cume, mas só das montanhas que me iludem, onde sei que nunca chegarei ao topo.

Eu quero um placar morto.

Quero lutar. Quero vencer. Mas não quero partir antes de você.

Não posso saber onde eu quero chegar.

Ser feliz, Deus que me livre.

Me livre dessa coisa amorfa que é viver plena e realizada. Aceitar minha condição de gentalha, aceitar os meus defeitos e tudo o que tenho como algo que mereço.

Não me venha com essa conversa de que eu sou uma dessas pessoas de gratidão.

Não, não pode ser.

Não sou Buda. Tô mais pra Judas e qualquer patifaria.

Não quero viver com ousadia.

Viver é sofrer. Prefiro medir o valor das minhas cicatrizes. As dores que carreguei, as injustiças que fizeram comigo.

Olha aqui. Olha bem fundo para essa marca. Foi quando eu caí em cima de uma navalha. Rasgou um monte. Sangrou bastante. Doeu muito. O corte foi tão profundo que marcou a minha alma. Então não vem com esse papo de calma, de plenitude e de perdão.

Doeu, meu corpo quase morreu e quem se fudeu nessa fui eu.

Essa outra aqui, olha bem, foi daquela outra queda. Eu tenho essa mania velha de cair de vez em quando.

Não importa, eu sempre me levanto. Sacudo a poeira, digo: já chega e sigo em frente.

Não tenho tempo para ser feliz.

Felicidade instantânea? Deve ser piada.

Onde já se viu, filho, a vida é uma longa estrada. Aliás, está mais para uma escada. Tem que subir os degraus, não é escada rolante.

Eu vou é seguir avante, rumo à honra, rumo a vitória. Nunca vi herói de verdade sem as marcas da glória.

Só assim para ficar pra história.

Tem que sofrer.

Me admira você não saber disso.

Ser feliz, só se for no Paraíso.

Aqui na realidade da Terra, não vou perder tempo com isso.

Vamos trocar ideias?

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🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

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