Sem crônicas — Empatia

Não é sempre. É só de vez em quando.

Só quando tenho tempo. Quando por vezes a vida vem e me dá uma alfinetada de sentimento, e então acontece:

lanço o amor fora de mim.

É como seu eu saísse do meu corpo. Esqueço o umbigo. O mundo já não gira de dentro para fora. Abandono a vil queixa de dominar meu próprio corpo e me ponho como espectador da vida do outro.

É muito estranho. Não estou deveras acostumado. Parece no início tão confuso, como se estivesse olhando através da neblina pelo lado errado.

Eis que neste lampejo percebo que nem todo universo é composto apenas daquilo que vejo. Existe algo mais além. Existe o outro alguém. Existe outro corpo. Há vida além do que aquilo que carrego aqui comigo.

Sou de prontidão consumido por um doce amargor de pena. Alma pequena pensa dessa maneira. Não consegue realizar algo contente como quando não é para si. Me ponho a contento daquele outro ser indigno em qualquer parte. Seja por alguma falta ou sobra que lhe cabe. Seja falta de dinheiro, a falta de modos, a falta de saúde, as sobras de dor.

O mal estar não dura muito, pois logo vejo, que tudo no fundo se trata da falta de amor. Sou invadido, então, por este avassalador preenchimento, que me recheia e, não o suficiente, transborda e a todo custo quer invadir alguma outra coisa. Lanço esse pedaço de amor no outro. Quero ser o outro. Quero ser feliz pelo outro. Quero ser apenas um. Quero ser o Universo, um pedaço imerso no todo. Quero que essa outra coisa faça parte disto comigo. Quero ser o seu abrigo. Seu irmão. Seu conteúdo. Desejo-lhe o bem, o alimento; desejo a sorte e a melhora da morte. Desejo o infinito, a imensidão de. coisas boas, como se fossem todas para mim. Para nós. Almejo de âmago que o mal tenha o seu fim. E me sinto pleno e triste, incompleto e riste.

Tento de pronto partir para a ação. Necessito fazer alguma coisa. Jogar uma esmola. Fazer caridade. Deixar passar a vez. Dizer palavras de consolo. Rezar pelo morto. Acalento meu breve desespero.

Tão logo ouço alguma buzinada da vida, recupero a sensatez e retorno ao trânsito da minha jornada.

Passou a dor da agulhada.

👏👏👏👏

🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

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