Sem crônicas — Dou nada

Ideograma japonês o Ma

Eu não tinha nada a dizer.

Mas tinha. Muito a dizer.

Eu não tinha nada, mas de repente, do meu nada, havia muita coisa a se dizer.

Porque um nada não é necessariamente vazio.

O nada pode ser nada aqui, mas acolá, pode mudar.

Há muito nos nadas. Eu aprendi isso em Literatura.

Um nada pode dizer muito, basta que você saiba o que dizer.

Um nada pode ser muito, basta que você saiba como fazer.

Em Literatura um nada pode ser muita coisa. E muita coisa pode ser nada.

O vazio daqui pode não ser vazio. Pode ser o recheio de lá, pode algo completar.

O vazio daqui pode ser cheio. Cheio de sentimento, de preenchimento. Pode ser alento.

O vazio de um pode preencher outro. O nada do último pode ser o adendo do próximo.

Em Literatura, todo nada muda.

Eu aprendi, um professor me disse, há muito no nada, a vida toda estava ali contida nos nadas, nos seus corriqueiros vazios.

Comecei um texto do nada, para falar que nada tinha quando comecei a página. Da primeira folha em branco, surgiu um vazio, um fio, uma trajetória.

Da nada veio a palavra, da palavra veio a primeira frase, surgiu o texto. Do texto uma confissão. Uma crônica.

Prometi a mim mesma que quando eu tivesse cem crônicas comemoraria minhas ausências, meus tempos de sem crônicas.

Do nada que eu era, dos nadas que eu ainda sou, muita coisa por aqui já se formou. Muitos alicerces e tijolos, dos quadrados ocos já surgem amálgamas em evidências.

Do nada que me torno, a pessoa que me transformo, parte daqui e partirá para o nada.

Não quero ser alguma coisa ou uma coisa qualquer.

Não quero ser nada, também não pretendo ser a pretensão ou a petulância, carregar o vazio dos que querem ser alguma coisa.

Quer ser meu nada, apenas ser eu. Quero ser o meu vazio, meu desterro, ter o que é meu digno de nada, uma existência muda compartilhada.

Não me importa.

Do nada veio o texto, veio a crônica, a dor em palavras crônicas deste texto, a crônica dor em dizer algo nobre, algo espalhafatoso sobre o nada que é viver.

A ferida crônica que é anacrônica, que sempre esteve presente e que vai estar aqui até o nada. Até o dia em que eu morrer.

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🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

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Izabella Cristo

Izabella Cristo

🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

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