Titanic sinking — Willy Stöwer, 1912

O navio está afundando.

Dentro dele, muita gente.

De todos os tipos. De todas as cores. De todas as correntes. De diferentes tamanhos e valores.

O navio está afundando.

Tem gente boa. Tem gente ruim.

O navio navega, tem gente que nega, mas o navio prossegue rumo ao seu fim.

O navio está afundando.

Bateu o casco. Algo furou. Um talho vesgo no que já era gasto, enferrujado de um grande navio embarcado.

No início, ninguém escutou.

Atribuíram aquele estranho ruído à um balanço de qualquer onda torta. Algo que para a gente que vive não importa.

Fez-se um buraco, um talho, uma rachada no meio.

Demoraram para perceber.

Muitos do navio continuaram seus passos como se a viagem fosse acontecer sem nenhum distúrbio. Chamaram os músicos. Saíram para jantar. Pediram saquê. Mal podiam prever o dilúvio que se passaria.

Toda tempestade se antecede de calmaria.

O navio está afundando.

Os primeiros marinheiros notaram. Começaram a lançar gritos. O capitão lá da popa, ignorou.

“Que marinheiros estúpidos! Que tanto grito por um furo!”

Mandou a ordem: vai lá e conserta.

Tem um buraco. Não é pequeno. Não importa agora de onde veio.

O navio estava cheio.

Os marinheiros do convés tentaram tapar a ruela. Não conseguiram. Vieram outros mais para ajudar. Lançaram mais gritos e apitos da popa.

Alguns ouviram, outros ignoraram. Outros ficaram sem ação.

O leme, sem rumo, rodeava tanto, que o navio parece que nunca teve direção.

O navio está afundando.

Subestimaram o tamanho do buraco e, quando se percebeu, a água já invadia todos os lados.

Aí que o povo finalmente percebeu que poderia morrer afogado.

O navio está afundando!

Deu-se o alvoroço.

Vai e vem de povo no convés. Onde é a saída? Onde estão os salva-vidas? Para que servem estes marinheiros?

Distribui os coletes.

Rebaixa os botes.

Quem vai primeiro? As mulheres? As crianças? Os velhotes?

Nos botes da sorte, a primeira classe sempre tem bilhetes premiados.

Alguns dos primeiros indicados se agarraram nos salva-vidas que compraram com o dinheiro nos calçados.

O navio está afundando.

A popa já está submersa. A quilha com o peso, partiu. Alguns desconfiam que nunca existiu.

O navio está fundando ligeiro. O caos vai então revelando cores dos passageiros.

Os de alma fina e doce, estão para os todos sempre cantando.

Os de alma azul e morna, estão para todos sempre rezando.

Os de alma verde e corajosa, direcionam e organizam o povo.

Os de alma fria e grossa, se escondem e aguardam seu lugar com encosto.

Os de alma negra correm, tentando, antes de descer, encher de joias e ouro os bolsos.

Os marinheiros tentam. Lançaram sinaleiras. Permanecem aos gritos. Alguns desistiram e choram. Calculam os botes que faltam. Veem os tantos que se afogam no mar gélido e vazio.

O navio está afundando.

Afunda para todos. Para os ricos. Para os moços. Para os tolos.

E não há preveja os sobreviventes do jogo.

O navio está afundando.

Afunda para todos. Todo mundo é igual.

Submergem com seu peso próprio, depois boiam no final.

O navio está afundando.

Afunda para todos. Para os a estibordo ou a bombordo.

Não importa de que lado veio quando se está morto.

O navio está afundando.

Afunda, mas tudo bem, porque mais além tudo acaba.

Até mesmo a mais árdua das batalhas.

Que assim seja. Amém

🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

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