Constelação Clarice

Newsletter — Adeus, Lygia, Oi Lygia

O Salão dos Escritores

Uma vez imaginei o salão comunal dos grandes escritores mortos sendo invadido por São Pedro.

⁃ Quem vai receber o Veríssimo?

Veríssimo. Não o Erico, esse já havia partido e reencarnado. O Veríssimo filho, um dos meus grandes ídolos naquele tempo. No meu texto louco e inacabado, nunca chegou a ser publicado, existiam algumas mulheres, mas me lembro de dar destaque apenas à Cecília Meirelles e à Clarice. Na época eu ainda não conhecia tantas outras escritoras, nem Raquel, nem Lygia, nem Hilda. Não imaginei elas naquele salão.

Perdoem-me tanta ignorância. As escritoras mulheres foram para mim assim, demoraram-se para chegar. Eu, tentando ser menos machista, fiquei as lhe caçar ainda meio tansa, elas foram e estão ainda se aprumando, se engruvinhando devagar a me conquistar.
Hoje imagino o salão recebendo Lygia. Ela contando umas anedotas e rindo alto com Hilda e Clarice sobre a história dos seus ocultos 100 anos recém-descobertos.

As meninas estariam lá, ao redor, numa ciranda, porque todos os personagens dos escritores, de certeza, podem perambular como fantasmas no salão se são convocados. Hoje, dois dias depois do seu aniversário, estariam todos de ressaca, menos o Osvaldo, que sempre me pareceu o tipo de aluno certinho e meio clichê.

Recebi a notícia do falecimento de Lygia e meu coração bateu um pouco mais triste. Escrevi parte desse texto correndo, mas a rotina turbulenta me impediu de postar antes.

Morre um poeta e o mundo fica mais triste e mudo. Um pouco mais surdo. Fica menos mágico e um pouco mais estúpido.

Estou aqui me despedindo de alguém que eu nem conheço, você talvez pense, mas é que conheço, é Lygia. É a Lygia, minha amiga.

Quando se admira um escritor a gente se torna meio parte dele, um caldo de letras misturado, e vice-versa, o que ele diz se embaralha com as palavras da gente. A gente é amigo dele, ele não só um mero conhecido, se torna meio íntimo, a gente pode escutar ele perto do ouvido, está permitido ter uns segredos de liquidificador.

Alguns autores tem essa capacidade de ficar próximos do nosso coração, mesmo que seja para instilar até mesmo inconformidade e revolta. É uma briga nossa, tomamos partido, semeamos essa intimidade intrusa, amigos que se estranham, discutem, debatem, discordam e concordam, se abraçam, costurando uma linha imaginária de conexão.

De repente a Lygia não é só Lygia, uma qualquer, ela é a minha Lygia, minha amiga, minha tia que senta comigo no café, minha vó que conta histórias. É alguém que está aqui, pertinho, do meu ladinho, sentada na varanda com os pés estirados no sofá enquanto eu leio. Alguém com quem eu posso pensar, com quem eu posso conversar sobre as amenidades mais cruéis da vida, sobre como andam todas as meninas, ah menina, a vida é assim, me fala sobre o medo de perder um filho, eu já perdi um filho, não gosto muito de falar sobre isso, vamos falar de outra coisa, da vida, dos homens, das mulheres, das meninas, de mistérios, vamos falar sobre a vida.

Certo dia, enquanto eu perambulava na exposição Constelação Clarice, sentei-me num banco que oferecia um áudio inesperado: uma gravação de Lygia conversando com Clarice. Jamais esquecerei a frase, anunciada com tom efusivo:

“Clarice, a gente precisa, precisa ajudar a humanidade a superar esse medo, esse medo da morte.”

Lygia não tinha medo da morte.

Será mesmo que Lygia não tinha medo?

Ela já não tinha mais medo ou aprendeu a conviver com seus fantasmas?Transformou-os em personagens e histórias? Será que podia conversar com suas meninas, seria capaz de estabelecer um diálogo com elas?

Sei mais de sua história do que de seus livros. Será que sei mais sobre Lygia? Será que eu a conheço, ela, pois, minha amiga. Será que dá pra conhecer o âmago de um autor pelo que ele escreve? Quantos segredos cabem entre as palavras desaguadas numa página e um coração? O que está nas entrelinhas entre a mente do escrevente e a tinta no papel?Até onde realidade toca a ficção? Até onde ficção imita ou apenas reproduz a realidade?

Deixo aqui mais perguntas do que respostas. Mistérios. Porque assim é a filosofia da existência, não saberemos jamais de tudo, quanto mais soubermos sobre o universo, mais nossa ignorância fica relevante, mais o universo se expande e se afasta de nós, menores estamos em nossa insignificância.

O que não quer dizer que sejamos piores. Podemos não perder nossa relevância se finalmente compreendemos que somos parte de um todo, parte de algo maior, acima de nós, seja o nome que for. E de nada adianta carregar tolo orgulho qualquer.

Nos resta, então, aceitar nossa condição humana e o fim dela, sem medo, sem receio. Apenas aceitar que, neste mundo, quem veio há de partir um dia, do mesmo jeito.

Te ajudo, Lygia.

Eu não sei tanto sobre felicidade, ainda aprendendo, ainda tenho medo da morte, ainda temo.

Mas prometo, prometo que vou tentar melhorar.

Vamos trocar ideias?

👇

Newsletter

Instagram

Twitter

Site

--

--

--

🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
Izabella Cristo

Izabella Cristo

🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

More from Medium

Penetralia ~ Fountain pen review ~ Faber Castel Ondoro Smoked Oak

Hipsters on Harleys: What’s up with the Mayans MC Season 4?

The Artists are Present: Uptown Welcomes the VAPA Center with “Art, Everyday!” Event

The Romance Of Magno Rubio and How It Reflects Filipino Values