Materna Idade — Borra de café

Eu te olho e te tomo num café.

Gasto os reais no supérfluo, na espuma impressa com tua face.

Menino bonito, como és bonito, menino. Não é porque és meu filho, não é porque és menino. É só porque a vida te trouxe desse jeito, só te trouxe, sem desapego, sem nenhum medo, te trouxe, tu fostes assim me imposto, imposto ao amor de dois corpos e corações completamente diferentes, que lá no fundo do inconsciente se encontraram e se confundiram, se entregam e se fundem, no abrigo sólido das almas humanas. Viestes imposto, quiseram instilar este caroço de amor em mim. Foi assim que eu te tive: submersa, imposta pela lei da vida.

Mandei imprimir a tua foto num café, numa borra. Quanto desperdício. Não queria ver tua sorte, não queria saber do futuro. Queria só ver tua foto em outro lugar, tua imagem saindo assim bonita, eu te olho e te vejo menino bonito, és um belo sorriso que eu contemplo e logo eu desfaço com um palito e com certa dó, remexendo os teus grãos na espuma e na minha consciência, percebo de que hás de partir um dia da minha convivência. Vais partir, mais provável que eu parta antes de ti, que assim seja. Nenhuma mãe quer deixar o filho adiante, mas menos ainda deseja vê-lo sair do palco de forma precoce.

Mexo teu rosto, o desafaço e tomo, sabendo que esta mesma imagem tomará minhas lembranças nos próximos anos e vai se contrastar com o teu eu novo, o presente que tu nos dá ao longo da vida que percorrerás.

Menino, tu se vais, tua imagem se vai e não se vai. Tua imagem se vai e fica, porque dentro aqui, serás muitas telas belas em minha companhia.

Agora entendo aquelas mulheres, o coração de toda mãe não cabe contento de um filho só, ela carrega consigo vários. São vários meninos, múltiplos o garotos, suas poses e sorrisos, eu teria de tomar uma revoada de cafés e chás para dar conta de tantas miragens.

São tantos meninos, são tantos que eu nem sei nesse meio por onde fico. Muito menos por onde ficarei mais tarde. Prossigo, seguindo o rumo da vida, com essa coisa de amor e de dor, aquela dor do lamento, que, agora entendo, toda mãe carrega por dentro. Alegria de ter, misturada a dor de um dia ter que te deixar.

A espuma, tão bela, tão fugaz, que depois serve de alimento, beleza que dura apenas por um momento, mas que marca a gente até o fim da nossa eternidade.

👏❤️

Vamos trocar ideias?

Instagram

Twitter

Site

Newsletter

--

--

Me Escondo aqui . Escritora✒️, cirurgiã🔪mãe👻,relacionamento sério com as palavras. Livros: Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store