Último café na Livraria Cultura

Lendas Urbanas — Babel

Adentrei aquela biblioteca estonteante.

Parei, então, diante da minha própria estante.

Era bem alta. Madeira de lei. Não era mogno, mas sim de andiroba. Tronco forte, advindo do norte, da região Amazônica. Matéria de primeira, embora não tão conhecida, mas um pouco mais escura e seca do que eu gostaria.

Estava um pouco torta. Se eu a empurrasse, ficaria cambaleante. Tratei logo de por um calço, para que a firmeza conservasse o conteúdo da estante.

Pesou um pouco. O conteúdo exigiu algum esforço, mas com empenho, consegui deixá-la firme. Não seria qualquer ventania a fazer com que ela caísse.

Coloquei nos andares mais baixos objetos. pesados. Livros de fastio, fotos de família, amuletos, uma base de calos e bons contos de uma infância madura. Assim estava segura de que não cairia tão fácil.

Reparei que outras estantes tinham armários.

A minha não, estava à mostra. Com poucas caixas e algumas portas de correr, só que de vidro. De longe, dava para ver que nada grande de esconde.

Ademais, nos andares acima, guardei gravuras, novas figuras e melodias; uns discos velhos e outros livros novos.

Reservei num canto fotografias de gente morta. Selecionei os medos, alguns receios e outras poucas anedotas em um cofrinho de segredo. Nada de chave. A memória é que abriria a caixa da discórdia.

Ali detrás, depois de subir alguns degraus, encontrei bem escondida a caixinha da minha escrita. Difícil de abrir, a começar pelas suas sete chaves. Tive de fazer várias viagens. Depois de aberta, no fundo dela encontrei minha escrita inerte, um pouco de neve, meus diários e um bilhete:

“Escreva o que quiser. Quando puder. Para o que der e vier.”

Mirei para cima. Muitas prateleiras a se preencher ainda. Armazenei, então, resmas de papéis em branco para utilizar ao longo dos anos.

Pensei em pintá-la de uma nova cor. Ela era púrpura de luta, ainda escura, mas cheia de magia e calor. Busquei o tom exato de alegria que combinasse dor e amor.

De repente, ouço um estrondo. Uma estante mais à frente desabando. Os outros próximos recolhiam vestígios do que caía com esmero e guardavam alguns objetos nas próprias estantes. Seguiram adiante.

Olhei naquele instante para a minha estante.

Babel era assim. Nunca se sabia quando uma estante tinha fim.

🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena.

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