Acervo Instituto Tomie Ohtake em São Paulo

Tenho medo de ir embora sem terminar.

Partir e deixar sem acabar. Largar o existir, deixar de agarrar o que der por vir, nesta forma. Ou estar morta para esse algo que chamo de consciência, sem ter finalizado todo o serviço.

Qual serviço?

Não sei.

Não sei nem mesmo se o que faço não é nada mais que um desserviço à humanidade. Uma confusão, uma calamidade, um erro, um desastre. Um gasto tolo, um desgaste da energia do universo.

Tenho medo, veja, daquilo que quero fazer e não fiz. Daquilo que falta eu terminar. Mas não sei por onde, nem como começar. Não sei os meios, não percebo os fins, não faço ideia de onde vai e vou parar.

Tenho medo de algo que é mais do que um receio. É um assombro pavoroso ao mesmo tempo que tosco, de não cumprir aquilo que quero e gosto, sendo que o tudo o que eu quero e o tudo que eu desejo é maior do que tudo que vivi neste mundo. É absurdo. É maior do que eu conseguiria realizar no tempo das várias vidas que me seriam concedidas, se eu acreditasse que pudesse haver mais de uma vida.

Ah, a vida! Essa maldita dádiva de estar presente aqui assim, organizada desta forma única nessa massa que agora consumo ininterruptamente. Daqui a pouco serei eu, ainda eu, porém já um pouco modificada. Daqui a pouco não serei nada. Ou melhor, serei algo, de outra maneira, pode ser orgânico, ora amorfo, ora em resquícios ressuscitado em outro corpo. Serei vestígios da terra, do adubo, das raízes do capim, da larva, da borboleta, da boca do sapo, da barriga da cobra, dos miúdos na mão do homem matuto que entra na mata e mata bicho cabreiro.

Por enquanto, sou eu e enquanto posso ser eu, que farei? Que tanto é esse encanto pelo que farei? Já que tanto quero, que tanto me preencho de desejos, por que não me contento um pouco apenas com a existência quente e macia de estar viva? Por que não me entrego um pouco ao relento do caminho que percorro, sem medo de estar exposto, sem medo de um dia ser algo morto, sem medo do que será o futuro, apenas sendo levada pelo vento?

Por que não consigo sentir o sorver do oxigênio? O prazer de ter por dentro um coração batendo? O prazer de emanar gargalhadas de doer barriga? De derramar lágrimas de alegria? De deixar a tristeza escorrer água dos olhos? De sentir o calor de um abraço abafado? De pestanejar e esbravejar uma corrente ardente de ódio a me escapar? Por que e como que quero me completar? E esse recheio, preencher esse oco que tenho no meio, onde está?

Um dia, irei encontrar?

Por que insisto em ter o controle de algo que sempre me foge? Que na verdade se esconde, pois eu nunca o tive em real possesso.

Tenho medo de ir embora sem acabar o que sou, o que fui, o que pendo que vou ser e o aquilo que gostaria de ser.

Acho bom eu começar a me mover.

🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

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