Te conto um pouco de mim, mas invento.

Com intento, eu minto.

Eu minto?

Ou apenas ré sinto e repito como um eco um pouco, ou muito, de mim mesmo.

Eu conto.

Ou interponho.

Coloco regras, escapo pelas frestas, dentre meados finos da história que faço de mim mesmo.

No início, fazia a esmo.

Mas aprendi com o tempo, que não há lamento forte que não se esconda através de um norte, de um corte ou de um narrador.

Mesmo aquelas velhas histórias que de horror que carrego, posso transformar num. trágico contratempo.

Eu invento.

Será que invento?

Ou sou…


Não é sempre. É só de vez em quando.

Só quando tenho tempo. Quando por vezes a vida vem e me dá uma alfinetada de sentimento, e então acontece:

lanço o amor fora de mim.

É como seu eu saísse do meu corpo. Esqueço o umbigo. O mundo já não gira de dentro para fora. Abandono a vil queixa de dominar meu próprio corpo e me ponho como espectador da vida do outro.

É muito estranho. Não estou deveras acostumado. Parece no início tão confuso, como se estivesse olhando através da neblina pelo lado errado.

Eis que neste lampejo percebo…


Museu de história natural de Londres — O tempo

Aconteceu.

É uma tragédia!

A vida. Essas coisas.

O fio da meada pode ser trança ou navalha.

O desenrolar da trama é pouco, diante do mundo muito louco em que tudo se passa.

As tiras do tempo garantem o movimento, mas nem sempre o ponteiro entalha um bom momento.

Aconteceu que a vida é triste.

O mal existe. O homem persiste.

Tem gente que ainda insiste em negar esse fardo.

Atribui a culpa ao acaso.

Fato é que independente do seu desagrado, o futuro vem de lá. E aqui comparece.

Arremete o instante e se faz presente. …


Acervo Instituto Tomie Ohtake em São Paulo

Tenho medo de ir embora sem terminar.

Partir e deixar sem acabar. Largar o existir, deixar de agarrar o que der por vir, nesta forma. Ou estar morta para esse algo que chamo de consciência, sem ter finalizado todo o serviço.

Qual serviço?

Não sei.

Não sei nem mesmo se o que faço não é nada mais que um desserviço à humanidade. Uma confusão, uma calamidade, um erro, um desastre. Um gasto tolo, um desgaste da energia do universo.

Tenho medo, veja, daquilo que quero fazer e não fiz. Daquilo que falta eu terminar. Mas não sei por onde, nem…


Titanic sinking — Willy Stöwer, 1912

O navio está afundando.

Dentro dele, muita gente.

De todos os tipos. De todas as cores. De todas as correntes. De diferentes tamanhos e valores.

O navio está afundando.

Tem gente boa. Tem gente ruim.

O navio navega, tem gente que nega, mas o navio prossegue rumo ao seu fim.

O navio está afundando.

Bateu o casco. Algo furou. Um talho vesgo no que já era gasto, enferrujado de um grande navio embarcado.

No início, ninguém escutou.

Atribuíram aquele estranho ruído à um balanço de qualquer onda torta. Algo que para a gente que vive não importa.

Fez-se um buraco…


Todo mês ela sangra.

Não é de agora.

Ela já veio suja de sangue desde o início, quando fez uma outra esvair-se de seu compromisso com a vida, enquanto alguém partia o primeiro cordão no meio. Aquele que mais tarde seria seu umbigo e seu martírio.

Nem se lembra exatamente a primeira vez que sangrou.

Foi bem antes da menstruação.

Acho que foi lá pela primeira chinelada. Ou foi naquela queda no lance da escada? Quando arrancaram-lhe o primeiro dente. Quando a esqueceram, de repente. Quando passaram firme o pente fino para catar os piolhos. Quando riram do seu choro…


Eu entro no quarto e você me pergunta com os olhos aquilo que por dentro já sabe.

É verdade.

Você vai morrer.

Não quiseram te dizer. Não sei se foi o medo ou a falta de jeito. Se foi o egoísmo, a prudência ou o abismo que por vezes cavam entre os próprios interesses e você. Ou se não sabem quando, nem como te dizer.

Você vai morrer.

Decerto que apesar de todo mistério, você já sabe. Não é demérito. A última batida há de chegar para todos nós. …


O sol queimava forte sua superfície.

O balançar manso das ondas chacoalhava seu corpo para lá e para cá. Como numa leve dança, a água empurrava-a e subia, inclinava e descia, refrescando por ora suas laterais, embora ainda mantivesse sua metade de cima exposta e seca.

Sentia o calor tocar sua semi-circunferência vitral livre e penetrar forte, preenchendo-a de estufa e tingindo de mais amarelo o papel que ela carregava dentro.

Quanto tempo se passara? Não sabia. O tempo e o espaço já não eram linhas. …


Último café na Livraria Cultura

Adentrei aquela biblioteca estonteante.

Parei, então, diante da minha própria estante.

Era bem alta. Madeira de lei. Não era mogno, mas sim de andiroba. Tronco forte, advindo do norte, da região Amazônica. Matéria de primeira, embora não tão conhecida, mas um pouco mais escura e seca do que eu gostaria.

Estava um pouco torta. Se eu a empurrasse, ficaria cambaleante. Tratei logo de por um calço, para que a firmeza conservasse o conteúdo da estante.

Pesou um pouco. O conteúdo exigiu algum esforço, mas com empenho, consegui deixá-la firme. Não seria qualquer ventania a fazer com que ela caísse.

Coloquei…


Entrelinhas se esconde a verdade

Visto a castidade

A coragem

O pesar

Entrelinhas carrego as surpresas

Rezo que não vejas

O desfecho

Ou o azar

Entrelinhas guardam-se os segredos

Os fastios

E os medos

De uma contra-ação

Entrelinhas também há coragem

Empatia

E o silêncio da condenação

Entrelinhas carrego a fala

Ciente que escolho

O que não dizer

Entrelinhas me ponho no ponto

Exato do canto

Entre eu e você

Entrelinhas existem cidades

Navios e paisagens

Cabem multidões

Entrelinhas existe um espaço

Infinito

Onde o mastro

Rege opiniões

Entrelinhas escrevo de lápis

Para que apagues

Aquilo que faltar

Entrelinhas é que mora a verdade

Mas nesta cidade

Só vive o pensar

Entrelinhas tecemos a vida

Com cordas talento

De uma contenção

Entrelinhas vou assim vivendo

Com saber, escolhendo

O que alinho ou não

Minha decisão

Izabella Cristo

🥰Escritora✒️, cirurgiã 🔪mãe👻,em relacionamento sério com as palavras. Autora dos livros Vida Nada Moderna e Retratos da quarentena. www.izabellacristo.com

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